segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Papo de bêbado - Parte 2

( ... )

- Você só sabe aquilo que conhece, e isso não é tudo - dizia-lhe o Oráculo.

"Komázein"
- ouviu, sem avistar o interlocutor.

- Que são essas vozes que ouço? Quem são? O que querem? Por que me sinto perturbado com isto? Por vezes algumas me sussurram com os mais aveludados e sinceros timbres, mas também sinto em outras, de forma velada os mais cruéis e venenosos intentos, condensados em palavras. Todas me parecem tão difíceis de se compreender quanto o próprio significado de minha existência. Vamos,
responda-me! Apenas diga qualquer coisa que me livre, ou mesmo amenize minha angústia!

E diante do sofrimento de nosso amigo, o Oráculo, aparentemente ciente do que se passava dentro de sua cabeça, permaneceu imóvel e em silêncio, simplemente lhe observando com um ar solidário.

De súbito, nada mais parecia lhe importar, estava até feliz. Tudo o que queria era estar com seus amigos, dançar, cantar... Foi embora. E saíram a cantar, rir e comemorar sabe-se lá o quê (talvez nem eles soubessem), numa graciosa dança pelas
claras ruas, iluminadas pela luz da lua cheia. Mas nosso amigo, como sempre embriagado, agora tinha seus pensamentos novamente imersos naquele Azul, que lhe trazia paz.

( ... )

Papo de bêbado - Parte 1

(...)

- Por que estou tão feliz? Esses sentimentos que vêm e vão
... E não têm explicação... - Pensava.
E vai o bêbado, errante, pela estranha estrada daquela velha embriaguez espontânea, encantado por aquelas cores, aquele azul acinzentado e suas risonhas aparições... Mas estas estradas não têm sinalização, de forma que não se pode conhecer suas sinuosidades. Chove. Nosso amigo embriagado desejava cada vez mais forte ter aquela companhia. Era apenas vontade de continuar embriagado de vida.
- O que é uma resposta ? - Indagava nosso curioso amigo em sua busca.

(...)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

13:53

O metrô é uma confusão. Pessoas correndo, pessoas desesperadas para garantir um assento a qualquer custo, pessoas normais, pessoas a passeio, pessoas boas... Mas muitas pessoas, cheias de esperança, vontades, desejos, Sentimentos. O trem ia rumo à zona norte, e acabava de parar na estação Botafogo, quando entrou uma garota ajudando um senhor de bengala que parecia meio desorientado. Ele era muito magro e enrugado, com uma expressão feliz mas sofrida no rosto, de estatura média e cabelos brancos bem curtos. Ela era linda, linda... de cabelos compridos castanhos, com as pontas descoloridas, com um olhar sereno e cativante de duas esmeraldas lapidadas pelo melhor artesão que já existiu. Não era muito alta e vestia um macacão jeans. Estavam conversando e ela tinha dificuldade de ouvir pois estava em pé e ele sentado, então ela precisava ficar se abaixando. Meus ouvidos estavam absorvidos pela música pink floydiana e Grand Funk, e excepcionalmente, estava tocando Because dos Beatles. Tirei um dos fones do ouvido para saber qual seria a próxima estação. Então a garota comentou que estudava e trabalhava com cinema, e o senhor respondeu: "Só fui ao cinema uma vez na vida, em 1971, quando ainda enxergava, há 38 anos atrás para ver o filme do Roberto Carlos: 'Roberto Carlos A 300Km Por Hora'. Foi emocionante, valeu muito a pena. Nunca mais fui. Sabe, é bom saber que há jovens que também querem progredir hoje em dia, ao contrário da maioria. Muito obrigado, viu?". Após alguns instantes de silêncio, o senhor disse: "Você é uma pessoa muito boa". Ela agradeceu, e ficou em silêncio novamente. Em volta, silêncio era tudo que não se ouvia. Paralelamente a toda essa loucura do nosso mundo desumano, percebi uma solitária lágrima que corria, desmanchando por um segundo a serenidade de seu enrubescido rosto, e foi rápidamente apanhada. Ela olhou para mim e sorriu com uma simpatia envolvente. Este momento repetiu-se várias vezes em minha mente, quase como um Déjà vu. Minha viagem havia chegado ao fim.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Fôlego

As ruas hoje estão calmas, e o dia ameno. Quando dei conta de mim, estava pedalando, e uma suave brisa carregava as folhas mortas, e parecia me impelir a pedalar cada vez mais rápido, como se estivesse ansioso para chegar em algum lugar ou achar alguma coisa. E assim o fiz, incontrolávelmente, até chegar numa rua que levava até a lagoa, e nesse breve percurso, vi uma pessoa familiar, também dando suas pedaladas. Mas não fui reconhecido, e de qualquer maneira, não consegui parar. Eu corria como um louco, não sei como minha bicicleta não se havia desmanchado, e finalmente eu cheguei, na beira da lagoa, numa ciclovia, e continuei... sem rumo, mas aproveitando cada momento daquele estranho passeio. O dia estava especialmente bonito, e ao observar a paisagem, meu olhar encontrou um monumento cuja existência era desconhecida por mim: um pequeno morro, coberto por rosas de todas as cores. De longe, já era possível sentir o envolvente perfume, e eu não poderia ir embora sem antes subir lá para apreciar a vista daquele típico dia de outono não brasileiro. Ao chegar lá, larguei a bicicleta num canto e comecei a subir um caminho íngreme até que me deparei com a presença de alguns poucos indivíduos que ali pareciam fazer um piquenique ou coisa parecida e outros que apenas relaxavam. Então, após alguns instantes, o tempo foi piorando, começou a escurecer, e uma fina chuva teve início. Junto com ela, vieram trovões , que pareciam estar caindo a cinquenta metros de distância. Assustado, desci até minha bicicleta, e corri, corri , corri... Corri como pude, sem ter noção de quanto tempo havia se passado.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Azul

O sol estava forte e ao longe, podia-se ver uma nuvem. A princípio, me parecia com a forma do nosso país, flutuando sabe-se lá para onde, com seus contornos não muito bem definidos e borrados. Era lindo de se ver. Após alguns poucos minutos de abstração, procurei novamente aquela imagem pela janela, e percebi que estava mais borrada ainda e desta vez, não consegui assemelhá-la a nenhuma forma familiar. Não passava de uma grande e gentil mancha branca aveludada sobre a imensurável tela azul. Deixei de lado novamente aquela aprazível imagem, para olhar a praia, e quando retomei minha contemplação, notei que aparecia bem ao lado, de maneira sutil e fugaz, a Lua, quase como quem tenta se esconder, camuflando-se na nuvem. E o seu lado escuro, que me confundiu, agora me parece azul, assim como na música...

sábado, 30 de maio de 2009

O que será de nossos filhos ?


'Leo diz:
http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/belezaecaos/#191100 , estao destruindo os desenhos, cara! >.<
...
Leo diz:
temo pelo meu filho

Leo diz:
até la, vai ter "Luluzinha vestibulanda", "Rugrats no mercado de trabalho" e "Power rangers, aventureiros da terceira idade" .'

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Doce, doce, doce... =)

Dentre as centenas de coisas doces que não consigo viver sem, acho que a cereja é uma das favoritas... Pena que esta linda árvore de flores tão maravilhosas não cresça por aqui, senão eu acabaria comprando um bonsai ou plantaria uma no meio do meu quarto, e comeria tanta cereja que morreria de uma doce overdose.
Já é quinta feira, o dia mais violonístico da semana , para mim, mas as músicas que estão na minha cabeça no momento não são tão violonísticas assim. O momento que se passa é complicado, apesar das pequenas grandes felicidades de um cotidiano ocioso que me tem revelado surpresas bem agradáveis. Acabei de perceber que já estou morando aqui no Rio há 12 anos. Mas to sentindo que tá faltando alguma coisa acontecer... Preciso de mudanças em breve ou então vou ficar maluco (um pouco mais que o normal). Começou a chover ainda agora e veio aquele cheirinho tão bom de chuva. E no fim das contas, eu to feliz e com saudades. =)

domingo, 17 de maio de 2009

E são as coisas simples...

Alvoreceu então um belo dia aparentemente pacato como qualquer outro... Domingo costuma ser sempre um dia monótono, (para compensar a seresta rock n'roll de sábado) mas súbitamente ouve-se uma linda melodia, inusitada e familiar, em meio a tantos ruídos desordenados. E trouxe uma paz leve, como a música sempre traz, com seus mistérios, tons, cores, verdadeiros universos paralelos descobertos sem querer, que viram refúgios nas horas de solidão, tristeza, tédio, e até felicidade...

A cada dia que passa acho que fico um pouco mais obcecado pelo meu violão. Música é tão bom né não ? =)

... Fui.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Tenacious D - Master Exploder



Muito boa essa música, pra quem não conhece , aí está. Quem já conhece relembra que é bom.
Não deixem de notar como a cabeça do cidadão da platéia explode quando Jack Black berra.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Viagem estática

...

Era uma terça feira como outra qualquer, e eu acabava de entrar na estação Pavuna. Em plena hora do
rush, o metro não tinha quase movimento, apenas algumas almas esparsas. Começava a escurecer, e não aguentava mais carregar minha mala e meu violão, mas não ligava tanto, pois estava completamente envolvido com algumas melodias quase transcendentais que tocavam no meu MP3. O trem demorava a chegar, e o ambiente que parecia ter uma espécie de atmosfera acinzentada começava a me trazer uma espécie de sentimento de cansaço e irritação. A previsão de chegada era de no mínimo meia hora, provavelmente por algum tipo de greve, mas não vem ao caso agora. Resolvi então perambular pelo local, e reparei que havia algumas lojas no segundo andar , que nunca tinha notado, e uma delas, me chamou a atenção: "Lojas Americanas". Entrei e fui direto para os doces, como de costume, e enquanto escolhia os chocolates, notei que estava sendo observado, e sem dar muita bola, segui para a plataforma novamente. O trem chega, e após um breve lapso , percebi que a viagem inteira já havia terminado, como se tivesse passado em um segundo, e quando eu saía do trem... dei falta da minha mala! Com mil trovões, deixei minha mala na Pavuna, na estação. Corri de volta, e me sentei na primeira cadeira livre. Sentia uma espécie de peso, no corpo todo , que sugava todas as minhas forças. Olhei em volta, e só via rostos aparentemente cansados, procurando desesperadamente pelo conforto de seus lares, e reparei ao meu lado, um rosto muitíssimo familiar, uma mulher, linda e muito elegante. Meu espanto foi ainda maior, quando percebi que ela não só me conhecia, como acabava de me cumprimentar. Após alguns instantes de silêncio, consegui reconhece-la , e inexplicavelmente, uma espécie de paz invadiu meu corpo, e extasiado, não consegui pronunciar uma palavra sequer. Simultâneamente, no meio de um grupo de pessoas que iam embora da estação do metro, consegui notar outro rosto que não me era nem um pouco estranho. Começava a perder completamente a noção de tempo e de realidade...


"Alô ?" - eu disse.


...